quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

MEUS 20 ANOS DE SONHOS.


Me filiei no PC do B em junho de 1992 a pedido do amigo então vereador Luis Meleiro, desde então já são vinte anos, entrei ainda moleque em plena adolescência, naquela fase de estudante, do fora Collor, do voto aos dezesseis, dos caras pintadas, militei em todas as estâncias do partido, no movimento estudantil dirigindo a umes, UJS, o DCE da UFAC aqui em Tarauacá, dos diversos embates políticos, das diversas eleições, da até pra relembrar dos jingles políticos da época, (lá no campo e na cidade, agora vai votar no amigo de verdade, vote no 65 tecle o verde da esperança... ou essa outra: "é Jorge aqui com a gente e Marina com Lula lá...ou ainda essa: ta na hora da onça beber água, pra quem tem sede de justiça ta na hora...), do movimento social fazendo parte da associação de moradores do bairro da praia, do movimento sindical dirigindo o maior sindicato de Tarauacá o Sinteac por dois  mandatos, chegando inclusive a direção estadual dessa entidade, e fazendo parte da direção executiva do PC do B, hoje assumo a pasta de secretario de organização uma das mais importantes, mas já exerci outras como secretario de comunicação, sindical, de juventude e demais.

Sou o tipo de cara que sempre ajudou, nunca reclamei ou proporcionei algum tipo de problema ao partido, sempre militando e defendendo a opinião e idéias do meu glorioso PC do B, tinha aquilo como questão fundamental em minha vida, fato esse que por muitas vezes até colocava o partido acima de tudo, acima até de minha família, e olha que eu sou neto e vim de família de fundadores e dirigentes do PMDB de Tarauacá, mas, minha família via meu empenho no PC do B e hoje quase todos são militantes e filiados ao partido comunista, foi muito difícil convencê-los a vir para o partido.

Quando entrei no PC do B, entrei porque via naquele partido a luta pela melhoria de vida, a luta pela a igualdade, a luta por uma vida mais justa e melhor. Como era de uma família humilde via ali a oportunidade de futuro coisa que o grandioso MDB nunca me inspirou.

Já o partido tinha aquele brilho, aquela relação de amizade e companheirismo, era na época que agente tocava um violão, não era Professor Valder, ainda lembro-me da musica que ele gostava “FLOR DE CHEIRO NO CAMINHO NA BEIRADA DE UM RIO LIMPINHO...” tomava uma cachaçinha, realizávamos torneios, gincanas e passeios na zona rural, época em que por pouca coisa colocávamos um boca de ferro “carro de som para propaganda volante” na rua com um microfone e  realizávamos um ato publico, e olha que não tínhamos recursos para tal, mas tínhamos a vontade da mudança e os comerciantes ajudavam. Quem não se lembra da campanha “UM REAL PRO FEDERAL”, quando o Moises foi candidato a deputado federal para ajudar o partido no Acre, e de tabela massificar seu nome, tínhamos até uma barraca na praia no verão pra vender lanche, era tudo lindo, tudo bonito, tinha romantismo, tinha amizade, tinha igualdade, tinha amor ao próximo, tinha brilho, tinha juventude, em fim tinha sonhos.

Hoje 2012, já são vinte anos de utopia, na verdade já si passaram uma vida, meu filho mais novo já vai completar quatro anos, o mais velho já vai completar dezoito, aquele guri que existia naquele tempo hoje é pai de família tem pensões para pagar, filhos para criar, tem outros sonhos a realizar, meu filho mais novo fala em ser um policial o mais velho quer ser jogador de futebol, na verdade eles só querem mesmo uma oportunidade pra viver e também poder sonhar com um mundo melhor assim como Eu.
Às vezes me pergunto o que eu ganhei com isso! Por que lutar! Cresci amadureci, já estou ficando velho ou como dizem, de cabelos brancos e com os dentes caindo, e a utopia João Maciel! Bom os sonhos, há esses ainda existem, mas agora, aprendi a enxergar a realidade vi que este sonho chega, mas pra poucos nem todos podem desfrutar dele, Acho que acabou o brilho, a paixão ta morrendo, o amor já não existe mais.

Mas quer saber mesmo lá no fundo! A coisa ainda tem solução, talvez o sonho reviva, mas precisamos falar mais grosso, mudar de opinião sair do anonimato, chutar o pau da barraca, gritar independência, cortar na carne embora que vá doer, feridas saram! Ai sim o meu glorioso irá ressuscitar como um Godizila feroz, sedento de fúria, somente assim iria satisfazer Marx, Engel, Che, João Amazonas e demais...
O fato mesmo é que já não to mais apaixonado, perdi o tesão a excitação, preciso de um choque, preciso viver, e sem utopia não dá, “ideologia eu quero uma pra viver”.

Cadê os camaradas, os vermelhinhos? Rosinéia, Janilson, Dona Zefinha, Luzivan (curaba) nosso pintor de cartazes e faixas, Eliana, Pilha, Valdenisio, professor Accioly, Evaristo, Carlinhos do buleado, Valtemir mota, Jarbas, Ronivaldo, Rui pescoçin, cacique Naço e Tonho, Pelezinho, cadê os índios nossos eternos amigos e camaradas etc... Será que alguns si foram e não tiveram o direito também não é mesmo João Bosco, Chico crente, Valder...

Pensava Eu, que nesses meus vinte anos não andaria mais na lama, iria ver meus filhos terminando o segundo grau e entrando numa faculdade publica, tendo um emprego, pensava Eu, que a educação iria ser a menina dos olhos, que os trabalhadores rurais iriam ter transporte, que a saúde ia ter remédios muitos profissionais e atendimento de qualidade, pensava Eu, que não iria a um bar no centro da cidade e o DUDU, “menino de rua, deficiente, pedinte de Tarauacá”, não viria na minha mesa pedir pra engraxar meu sapato e pedir um real pra comer, pensava Eu, que nessa época atual quem roubasse o dinheiro publico iria preso pagar por seu crime, pensava Eu, que jamais iria ver o meu amigo João R. mendigando um emprego pra seus filhos, pensava Eu, que quando precisasse de algo, minha solicitação seria rapidamente atendida, pensava Eu, que haveria respeito, consideração, amizade com minha pessoa, pois ajudei também a construir, pensava Eu, que o “poder” podia ser compartilhado por todos, pensava Eu, que ser vigilante ou lavador de banheiro seria insignificante.

Na verdade acho que tudo é perdoável, só não entendo e quero entender, quem souber me ajude a entender o porquê que às vezes algumas pessoas que não participaram de sua vida, sabem reconhecer seu valor, tem consideração por você, bem mais do que as pessoas que estão mais próximas da gente, que lhe acompanharam, que convivem e conviveram com você.

Acho que vou acordar de novo, afinal agora são três da madrugada, não sei si durmo, ou contínuo sonhando, acho que vou acabar com essa besteira utópica e ver si meu filho ta bem, si não caiu da cama, que cama si ele dorme comigo e com a mãe dele!

Será mesmo que no final das contas tudo valeu à pena.

Recebi um convite importante de uma amiga hoje, poucos saberiam dizer não, Eu disse! Meu corpo, minha alma, meu ego, meu espírito, meu pensamento, meu sentimento de abandono, estavam dizendo sim, no entanto! meu coração vermelho disse não.

“Relato de um camarada comunista, que acordou na madrugada e não conseguiu, mas dormir! Que está se sentindo fraco, titubeando como diz o outro, precisando de um abraço companheiro, de palavras de incentivo ou até mesmo de um simples telefonema, afinal já inventaram o celular”.

João Maciel. Em 05.01.2012






3 comentários

Anônimo

Caro Joãozinho,
Fazem muitos anos que não leio um relato tão cheio de poesia e sinceridade. Como se diz, saiu de dentro do coração. Como sabes bem, não sou filiado ao Partido, mas comungo sua dor, sua inquietude, seus sonhos...
Você cresceu, mas seus sonhos e idéias ainda são crianças e vão crescer; não em nossas mãos, que como já dissestes, estamos velhos, mas nas de nossos filhos e netos.
E como diz a propaganda, nós somos brasileiros e não desistimos nunca.
Parabéns pelo desabafo!
Prof. Julio Guilherme Peres de Menezes

Anônimo

Amigo eu gostei muito do seu relato, tudo quanto você escreveu é uma pura verdade. A gente sonha, se doa, vai a luta, sofre, vem as felicidades numa vitória eleitoral mais poucos dias após nossos companheiros empossados, começam a vir as decepções, você se pergunta: poxa eu acreditei nesse cara, pensei que fosse um cara de carater, ético, aí você logo percebi que ele era igual a todos os outros hipócritas. Eu Sempre digo que eleição pode ser comparado a um romance, vocÊ entra com todo o entusiasmo e logo na frente você se senti traido, acabado. Valeu a pena? acredito que valeu um pouco a pena pelas amizades que você constitui nesse tempo, mesmo você ficando envergonhado com seus amigos por ter vendido um sonho paras eles que infelizmente não se realiza nem para você. Cara esse seu relato é muito importante e quando estava lendo me perguntei: será que essa história não é a minha também, logo concluo que não só a minha mais de centenas de militantes. Mais para nós que temos sangue político correndo em nossas veias, infelizmente vamos querer apostar tudo novamente nos próximos pleitos e sonhar que agora vamos acertar. Talvés mais uma decepção. Mais vamos a luta sempre. (Welison Silva)

Blog do Valtamir 6 de janeiro de 2012 10:33

Camarada João Maciel, fiquei orgulhoso com sua sinceridade,sua angústia, seu desabafo. Muitos,inclusive eu, estão entalados com esse mesmo sentimento, mas não têm coragem ou atitude para desabafar. Suas palavras são as minhas e de muitos camaradas que também perderam a confiança ou até mesmo a esperança numa ideia tão boa, tão fraterna e igualitária como defendiam Max, Engel, Che, João Amazonas e outros. Eu comecei a simpatizar as lutas dos camaradas do PC do B, desde 1986, e em 1988 eu me filiei, dai então travei uma luta com toda minha família, que a maioria era PMDB e PDS e me chamavam de comunista, e eu, com muito orgulho, tentava convencê-los da importante luta do partido em defesa dos mais fracos. Consegui ainda convencer alguns a se filiarem, mas pra minha surpresa, os que eu não consegui convencer, os mais radicais, hoje, mesmo sem militar no partido, são bem mais considerados que eu com 23 anos de militância.É, meu amigo, meus filhos, assim como os do camarada João Rego, também esperam por uma oportunidade. E, não aguentando mais esperar, resolveram tentar a vida em Rio Brando, enquanto as duas filhas que também terminaram o ensino médio e moram comigo, ainda não conseguiram um trabalho. Adorei a sua frase "MEUS VINTE ANOS DE SONHO", eu também ainda sonho em dias melhores, pelo menos para os nosso filhos e futuras gerações, pois como você também disse, estamos velhos, mais nossos sonhos ainda continuam jovens. Eu, por muitas vezes, já pensei em desfiliar-me do partido, porém uma foça estranha me diz que não, ele não tem culpa dos descasos dos nossos representantes, e aí eu continuo a sonhar, assim como você. Como disse o colega Júlio Peres em seu comentário, "O BRASILEIRO NUNCA DESISTE". Eu também perdi muitas oportunidades em outros partidos, no entanto minha lealdade não me deixava ir. Não estou reclamando, estou apenas desabafando, esperando encontrar o reconhecimento da minha participação e esforço em defesa do partido. Parabéns meu amigo de fé, meu irmão, camarada João Maciel, quem sabe um dia seremos recompensados. Professor Valtemir Mota

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